I introduce you My Peace

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"One day my dreams will be reality like Bobby said to me."
        -- Manu Chao, "Mr. Bobby"

Wednesday, May 24, 2006

Um último sábado


Sábado de manhã, dezembro, uns anos atrás. Não lembro bem quem ligou, talvez ela, provavelmente eu. Eu queria, ela também.

Ainda que já desacostumados, combinamos o de costume; ela trouxe Mc para almoçarmos, eu desci na locadora para pegar um filme. Me preparei para a sua chegada como se não fosse alguém de quem eu um dia já fora bastante íntimo. Estava tranquilo, sabia bem o que queria, sabia bem que aquele sábado não seria muito mais que apenas aquele sábado.

Peguei um do Paulo Miklos, aquele com o rapper que foi assassinado. Liguei antes pra perguntar, ela topou. Chegaria em breve. Subi, cuidei dos últimos ajustes com o corpo e o quarto e quando a luz da campainha piscou fui atender a porta. Ela subiu direto, era da casa, porteiro nenhum iria barrá-la mesmo sem tê-la visto há meses.

Beijo no rosto, abraço sem maiores; vão-se os BigMacs e embalamos em uma conversa quase fútil. Será que ela me contaria da "novidade"? Sim, antes mesmo do filme começar.

"Tô namorando..." - disse.

"Você acha que eu não sabia?" - respondi.

"Imaginei mesmo que soubesse."

"Parabéns." - quase irônico. Morreu aí o assunto.

Coloquei o filme, deitamos juntos, como antes, como sempre, como quando éramos um do outro. Ela deitada no meu peito, eu a acariciando, fazendo cafuné, cuidando como eu sei cuidar. Um beijo não demoraria a acontecer, pensei.

Abraçados, juntos, grudados como apaixonados, alcancei seus lábios com os meus. Ela não abriu a boca, não se deixou beijar. O filme nesse momento estava parado.

"Tô namorando..."

"Eu sei". Ela permaneceu em silêncio. Ainda bem abraçados perguntei:

"Tá feliz?"

"Não sei."

"Você gosta dele? Ele gosta de você?"

"Não sei." - Arrisquei então aumentar as chances de escutar algo desagradável.

"Tem química? Tem pele? Tem tesão??"

"Sei lá..." - ela respondeu, deixando neste momento algumas lágrimas escorrerem dos seus olhos.

Abracei-a sem rancor, sem paixão, sem amor, simplesmente por se tratar de alguem ali precisando de um abraço.

Ligamos o filme denovo e assim permanescemos até o final.

Ela não ficou mais muito tempo depois que o filme acabou; tampouco voltaríamos a nos falar na época.

Fechei a porta tranquilo, em paz comigo mesmo, sorrindo. Aquela tristeza desesperada dos últimos meses já não mais existia. O ano ainda não tinha terminado mas eu já podia sentir que uma nova fase da minha vida acabava de se iniciar.

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