Um último sábado
Sábado de manhã, dezembro, uns anos atrás. Não lembro bem quem ligou, talvez ela, provavelmente eu. Eu queria, ela também.
Ainda que já desacostumados, combinamos o de costume; ela trouxe Mc para almoçarmos, eu desci na locadora para pegar um filme. Me preparei para a sua chegada como se não fosse alguém de quem eu um dia já fora bastante íntimo. Estava tranquilo, sabia bem o que queria, sabia bem que aquele sábado não seria muito mais que apenas aquele sábado.
Peguei um do Paulo Miklos, aquele com o rapper que foi assassinado. Liguei antes pra perguntar, ela topou. Chegaria em breve. Subi, cuidei dos últimos ajustes com o corpo e o quarto e quando a luz da campainha piscou fui atender a porta. Ela subiu direto, era da casa, porteiro nenhum iria barrá-la mesmo sem tê-la visto há meses.
Beijo no rosto, abraço sem maiores; vão-se os BigMacs e embalamos em uma conversa quase fútil. Será que ela me contaria da "novidade"? Sim, antes mesmo do filme começar.
"Tô namorando..." - disse.
"Você acha que eu não sabia?" - respondi.
"Imaginei mesmo que soubesse."
"Parabéns." - quase irônico. Morreu aí o assunto.
Coloquei o filme, deitamos juntos, como antes, como sempre, como quando éramos um do outro. Ela deitada no meu peito, eu a acariciando, fazendo cafuné, cuidando como eu sei cuidar. Um beijo não demoraria a acontecer, pensei.
Abraçados, juntos, grudados como apaixonados, alcancei seus lábios com os meus. Ela não abriu a boca, não se deixou beijar. O filme nesse momento estava parado.
"Tô namorando..."
"Eu sei". Ela permaneceu em silêncio. Ainda bem abraçados perguntei:
"Tá feliz?"
"Não sei."
"Você gosta dele? Ele gosta de você?"
"Não sei." - Arrisquei então aumentar as chances de escutar algo desagradável.
"Tem química? Tem pele? Tem tesão??"
"Sei lá..." - ela respondeu, deixando neste momento algumas lágrimas escorrerem dos seus olhos.
Abracei-a sem rancor, sem paixão, sem amor, simplesmente por se tratar de alguem ali precisando de um abraço.
Ligamos o filme denovo e assim permanescemos até o final.
Ela não ficou mais muito tempo depois que o filme acabou; tampouco voltaríamos a nos falar na época.
Fechei a porta tranquilo, em paz comigo mesmo, sorrindo. Aquela tristeza desesperada dos últimos meses já não mais existia. O ano ainda não tinha terminado mas eu já podia sentir que uma nova fase da minha vida acabava de se iniciar.





the devil is in the details
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